
Uma sábia decisão, me matricular na academia do Sport. Duvido que nesta cidade haja opção melhor - pelo menos para o que eu quero de uma academia, claro. Lá, no horário em que eu vou, normalmente estamos eu, os professores e Deus Pai Todo Poderoso. Mesmo quando chega algum intruso, normalmente é alguém simpático que cumprimenta rapidamente e vai pra esteira, me deixando em paz com meu lebensraum.
Ah, estou apaixonada. Lá, ao invés de ventiladores e ar condicionado, tem janelões imensos que, sempre abertos, deixam o ar correr e ninguém fica enfurnado, pingando. De um lado, a vista é pro Mergulhão, e do outro, pras piscinas olímpica e infantil, coloridas, dançando com os raios de sol. E, mais ao lado, o campo de futebol, com os jogadores treinando, na maior energia. O astral é tão bom que quase esqueço que estou ali fazendo esforço e... estudando. Sim, porque eu levo o MP3 com as aulas gravadas pra ir memorizando. Minha sina.
..................................................................................
Na verdade, estava mesmo precisando de uma alternativa para este corpo que me pertence, afinal de contas eu queria o melhor dos mundos, que não existe: ficar em forma dizendo sim pra cada guloseima que me oferecem.
Ou, então, ser como aquela moça que eu vi semana passada, no Procopão.
Estávamos eu e o Rodriguinho degustando uma picanha maravilha e uma vaca atolada (minha paixão de inverno), quando chegou um casal e se sentou na mesa ao lado. Ele, um tipo comum, de jeans e camisa. Ela, uma moça em torno dos 30, linda de morrer, apesar de seus muitos e muitos quilos a mais.
Pediram um vinho enquanto aguardavam um casal amigo, que chegou logo depois. Fiquei observando aquela mulher, com um enorme anel prateado, blusa xadrez, cabeeeelo que não acabava mais, até o meio das costas, castanho-claro e com franja lateral. Pele trabalhadamente bem maquiada, unhas feitas, era uma boneca. Mesmo pesando - seguramente - mais de cem quilos. Morri de inveja: todo mundo sabe que pode até existir mulheres que não tenham tendência para engordar, mas elas naturalmente comem menos e costumam preferir aimentos naturais, equilibradinhos. Agora, ser um bom prato, assumidamente, sem jamais pensar duas vezes diante de uma colherada de Nutella, isso é um prazer que só aquela gordinha rosada e alegre deve conhecer. Fiquei pensando em todas as vezes na vida em que deixei o barco correr solto e comi o que me dava vontade. Fatalmente chegava o dia de uma festa de formatura, de um casamento, e a dupla alcinhas e salto fino saboreava o doce sabor da vingança pra cima dos meus ombros caídos. Eu, definitivamente, fico HORRÍVEL quando engordo, até porque comigo fica tudo desigual: peito grande, sem cintura, braços sem forma, quadris sempre estreitos.
Chegaram os amigos do tal casal, e eu morta de curiosidade em saber o que eles iam pedir para jantar. Eu e Rodriguinho terminamos nosso prato, pedimos sobremesa, café, água mineral, papel pra desenhar, e enfim a conta. E nada de aquele povo pedir comida. Foram ali pra tomar um vinho e bater papo, tão-somente.
Fiquei estupefata: quer dizer que, além de ficar bonita numa condição que nenhuma outra mulher ficaria, e de poder comer o que tiver vontade, ela ainda se dava ao luxo de sair para um restaurante caprichado daqueles apenas pelo prazer da companhia dos outros? Não se tratava de uma compulsiva cheia de embaraços emocionais por trás do corpanzil que chamava tanto a atenção dos outros?
Saí de lá com a inveja triplicada, mas com uma sensação divertida de saber que neste mundo cheio de estereótipos ainda existem pessoas que desafiam o previsível, o pré-concebido, o óbvio. E reconhecendo lucidamente a enorme distância entre meu mundo e o dela, prometi a mim mesma: Vaca Atolada, de novo, só no inverno que vem. E depois de muuuito estica-e-puxa na aparelhagem do meu clube do coração.






