Sábado, Julho 04, 2009



Uma sábia decisão, me matricular na academia do Sport. Duvido que nesta cidade haja opção melhor - pelo menos para o que eu quero de uma academia, claro. Lá, no horário em que eu vou, normalmente estamos eu, os professores e Deus Pai Todo Poderoso. Mesmo quando chega algum intruso, normalmente é alguém simpático que cumprimenta rapidamente e vai pra esteira, me deixando em paz com meu lebensraum.

Ah, estou apaixonada. Lá, ao invés de ventiladores e ar condicionado, tem janelões imensos que, sempre abertos, deixam o ar correr e ninguém fica enfurnado, pingando. De um lado, a vista é pro Mergulhão, e do outro, pras piscinas olímpica e infantil, coloridas, dançando com os raios de sol. E, mais ao lado, o campo de futebol, com os jogadores treinando, na maior energia. O astral é tão bom que quase esqueço que estou ali fazendo esforço e... estudando. Sim, porque eu levo o MP3 com as aulas gravadas pra ir memorizando. Minha sina.

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Na verdade, estava mesmo precisando de uma alternativa para este corpo que me pertence, afinal de contas eu queria o melhor dos mundos, que não existe: ficar em forma dizendo sim pra cada guloseima que me oferecem.

Ou, então, ser como aquela moça que eu vi semana passada, no Procopão.

Estávamos eu e o Rodriguinho degustando uma picanha maravilha e uma vaca atolada (minha paixão de inverno), quando chegou um casal e se sentou na mesa ao lado. Ele, um tipo comum, de jeans e camisa. Ela, uma moça em torno dos 30, linda de morrer, apesar de seus muitos e muitos quilos a mais.

Pediram um vinho enquanto aguardavam um casal amigo, que chegou logo depois. Fiquei observando aquela mulher, com um enorme anel prateado, blusa xadrez, cabeeeelo que não acabava mais, até o meio das costas, castanho-claro e com franja lateral. Pele trabalhadamente bem maquiada, unhas feitas, era uma boneca. Mesmo pesando - seguramente - mais de cem quilos. Morri de inveja: todo mundo sabe que pode até existir mulheres que não tenham tendência para engordar, mas elas naturalmente comem menos e costumam preferir aimentos naturais, equilibradinhos. Agora, ser um bom prato, assumidamente, sem jamais pensar duas vezes diante de uma colherada de Nutella, isso é um prazer que só aquela gordinha rosada e alegre deve conhecer. Fiquei pensando em todas as vezes na vida em que deixei o barco correr solto e comi o que me dava vontade. Fatalmente chegava o dia de uma festa de formatura, de um casamento, e a dupla alcinhas e salto fino saboreava o doce sabor da vingança pra cima dos meus ombros caídos. Eu, definitivamente, fico HORRÍVEL quando engordo, até porque comigo fica tudo desigual: peito grande, sem cintura, braços sem forma, quadris sempre estreitos.

Chegaram os amigos do tal casal, e eu morta de curiosidade em saber o que eles iam pedir para jantar. Eu e Rodriguinho terminamos nosso prato, pedimos sobremesa, café, água mineral, papel pra desenhar, e enfim a conta. E nada de aquele povo pedir comida. Foram ali pra tomar um vinho e bater papo, tão-somente.

Fiquei estupefata: quer dizer que, além de ficar bonita numa condição que nenhuma outra mulher ficaria, e de poder comer o que tiver vontade, ela ainda se dava ao luxo de sair para um restaurante caprichado daqueles apenas pelo prazer da companhia dos outros? Não se tratava de uma compulsiva cheia de embaraços emocionais por trás do corpanzil que chamava tanto a atenção dos outros?

Saí de lá com a inveja triplicada, mas com uma sensação divertida de saber que neste mundo cheio de estereótipos ainda existem pessoas que desafiam o previsível, o pré-concebido, o óbvio. E reconhecendo lucidamente a enorme distância entre meu mundo e o dela, prometi a mim mesma: Vaca Atolada, de novo, só no inverno que vem. E depois de muuuito estica-e-puxa na aparelhagem do meu clube do coração.

Sexta-feira, Junho 26, 2009


Se o mundo não faz outra coisa desde ontem, senão chorar, e segundo o próprio Michael, we are the world, então vamos chorar aqui também.

Chorar de susto, de tristeza e de culpa (mas essa vamos expurgar, combinado?)

De susto porque a morte é coisa pra nós, de carne e osso. Não para um alien como Michael Jackson. Era talentoso demais, exótico demais, famoso demais, tudo excessivamente fora do normal para os padrões humanóides. E, como ser extraterreno que era, causa espanto que tenha tido um fim tão... pouco original. Morreu como se fosse uma pessoa comum, que se abusar de remédios pode ter uma parada cardíaca. A morte dele é, sobretudo, injusta: então passou anos dormindo naquela bolha de oxigênio pra não alcançar nem metade dos 120 anos que pretendia?

De tristeza porque enquanto ele fosse vivo, haveria esperança de entrar numa terapia, recobrar a sanidade, gravar mais músicas lindas, talvez até encontrar um (a) parceiro (a). Enfim, ser feliz de verdade numa vida adulta que ele não chegou a conhecer. Cada pessoa querida (conhecida ou não) que morre me deixa sempre a mesma dor: a piedade extrema de quem nunca mais poderá curtir os milhares de prazeres de estar vivo.

Será que ele nem chegou a conhecer o Todd? Melhor nem pensar nisso.

E por fim, a morte de MJ põe fim ao Maicoldjecson divertidamente esquisitão, o "megapopstar tarado" que fez a alegria dos humoristas, e faz surgir um Michael Jackson funestamente artístico, mítico, divulgador da música negra, vítima da incomprensão de todos nós, com nosso deboche insensível. De piada universal, passou à criança desprotegida e infeliz que nos servia seu talento e suportava nossas gargalhadas.

É uma pena enquadrarem esse artista fantástico ao lado de outros cristos judiados como John Lennon, Elvis, a chata da Janis Joplin. Até porque é inadequado. MJ era único, não dá pra compará-lo com mais ninguém.

Quem quiser aderir a essa onda, que não conte comigo. Eu me recuso a participar desse pacto canonizador. Pra mim, MJ continua exatamente o mesmo. Vou continuar ouvindo Human Nature pela obra-prima da soul music que é, curtindo Billy Jean porque é deliciosa, vou continuar acreditando que ele realmente possa ter tentado beijar Macauley Culkin na boca e não pretendo me arrepender de achar graça nas paródias do Hélio de la Peña. Nem de culpá-lo por ter me feito chorar tanto quando eu era pequena, com a musiquinha do USA for Africa e suas crianças passando fome. Michael Jackson foi maravilhoso por tudo isso, e é assim que eu quero conservá-lo.

Fico com Astrid Fontenelle, que também avessa a esse clima de pré-beatificação, lamentou ele ter virado purpurina e pôs o CD pro filho pequeno conhecer.

Domingo, Junho 21, 2009


Fanáticos

Foi por pouco. Mas se eu tivesse um pouco mais de carisma e nenhum caráter, o mundo poderia ter um novo Hitler. Ou uma candidata a morrer de overdose. Isso por causa da minha tendência de aderir massivamente a tudo o que me faça muito, muito bem. Por quinze minutos eu não me tornei uma fanática religiosa, nem um Charles Manson. Quinze minutos? Vá lá, acho que isso também requereria um click de patologia mental, da qual julgo ser livre. Minha vertente psicótica, para a segurança de todos nós, é puramente musical.

Mas o fato é que, inesperadamente, um som apreendido me transforma em outra. Foi por uma tarde de piscina na casa de uns tios, em 1989, que me tornei Beatlemaníaca. Durante todo o dia tocou uma única fita cassete, lado A e lado B com aquelas musiquinhas fofas da primeira fase dos Beatles, e eu não sei se foi o sol, a água, o pavê de morango ou os próprios Fab Four, mas eu nunca mais voltei ao normal. Ia pra aula vestida de gola rulê preta, recortava fotos de revistas, punha posters na parede do quarto, o que manda o figurino. Sabia de absolutamente tudo sobre eles, aliás, quase uma obrigação para os fanáticos: esse devotado amor não tolera ser posto à prova.

Foi, também, do dia pra noite que eu vesti a camisa do fã-clube de Yngwie Malmsteen, nome que eu sempre tenho que repetir, primeiro porque ninguém nunca ouviu falar, e segundo porque a pronúncia é difícil mesmo. Meu grande amigo Rodrigo Itaboray, na época meu namorado, chegou em minha casa com um LP debaixo do braço e no primeiro acorde com cheiro de gelo que eu ouvi, fiquei curiosa para saber detrás de que pinheiro da Suécia aquele guitarrista tinha extraído notas tão parecidas com os sons da minha alma. É exatamente esta a sensação de ser abduzido musicalmente: queremos explorar a obra do artista porque ele, num distraído dedilhar de cordas, viajou na velocidade da luz pra dentro de um bem-estar que a gente não sabia que podia sentir.

Mas embora eu assinasse as provas do Magister como Flávia Mc Cartney e tenha ido parar na Suécia certa de que minha essência estava perdida por lá, não carreguei esses ídolos de adolescência para a idade adulta, pelo menos não no mesmo nível, graaaças a Deus. Nada mais deprimente do que um colecionador. Tenho os discos, curto as músicas, tudo dentro da normalidade.

O que não me impediu de me entusiasmar infantilmente quando conheci a música do Todd Rundgren, campeão absoluto de posts homenageadores do Bijunews. Entrei no carro do Daniel, meu irmão, numa noite depressiva de 2002, para uma insondável "viagem" até o bairro onde ele iria buscar uma guitarra na casa de um amigo (eu, quando estou deprimida, preciso passear de carro. De preferência, no banco de trás, e de mais preferência ainda, se o condutor puder se esquecer completamente da minha presença ali). Sincronicamente, foi só ouvir Change, para eu descobrir o Todd e, quase automaticamente, um portal para tempos bem diferentes.

Como não acredito que se possa querer mais de um artista, além de ele por sua obra fazer com que nos sintamos mais capazes de felicidade do que supúnhamos, passei a ter novamente que repetir um nome difícil e desconhecido toda vez que alguém me pergunta sobre o que eu ando ouvindo.

E como toda vez em que a gente se apaixona é a definitiva e fatal - isso vale também para a música - venho once again via Bijunews desejar ao Todd, neste 22 de Junho, um feliz aniversário. Com meus sinceros votos de que sua arte faça a ele próprio o bem que me faz.

De quebra, pedir que Deus abençoe a todos os músicos e as pessoas que se dedicam a divulgá-los, e que não sabem que podem estar por aí salvando vidas.

Domingo, Junho 14, 2009



Alternativas para um crepúsculo de Domingo: antes de achar (ou ter certeza) de que a vida não vale a pena, convém começar reconhecendo que a realidade é chata, mas é o único lugar onde você ainda pode comer um bom bife com batatas fritas (Woody Allen). E ouvir o Todd, claro. A pior parte de deixar a vida será essa, com certeza: não ouvir Love is the answer nunca mais.

Back to the topic: entre a depressão e a euforia, eu fico com a segunda. Justamente a euforia do réveillon semanal: todo domingo á noite é um 31 de Dezembro (valeu, Evelyn!!) na vida dos insatisfeitos crônicos, como eu. Há duas segundas atrás, por exemplo, comecei a malhar firme. Domingo passado a esta hora meu material de estudo e minha agenda estavam um exemplo de organização. O pecado, infelizmente, foi jogar fora tanto planejamento nas duas entradas que eu tive que dar no hospital por conta de uma crise alérgica brava.

Pois bem. Hoje me deu vontade de encerrar o ciclo com uns desabafos, pra acordar outra amanhã. Vim dizer, por exemplo, que estou muuuito cansada de gente que tem opinião formada de imediato, sobre tudo. Mesmo sobre o que nem existe ainda, células-tronco, novidades da tecnologia nipônica, concurso de miss 2010. Raul Seixas tinha razão. É infernal isso!! Mas tem pior: Gente que acha estiloso estar sempre de muito mau humor. Como se a leveza, a alegria, a joie de vivre fosse uma santa ignorância, digna de pena. Essas pessoas parecem se sentir obrigadas a retrucar com um comentário ácido sobre qualquer coisa que tenham ouvido, vivido. Se o dia foi tranquilo, eles dizem que estão terrivelmente entediados. Se foi agitado, estão "estressados". Se foi feliz, maravilhoso, fingem indiferença. Sem falar na mania de perseguição: esses seres altamente exigentes consigo e com o próximo são, invariavelmente, invejados, pesquisados, cobiçados, mesmo não sendo nem fazendo nada de tão notável assim. Ah, gente, auto-estima baixa tem limite, vá. Fica registrado o meu protesto contra essa gangue que não se toca do tamanho da bandeira que dá.

Ainda na faxina de domingo: quero varrer da minha alma todos os programas de TV que eu assisti neste fim-de-semana. Como a televisão está chata!! OK, nem tudo está perdido. Amo as festas da Nigella. E morri de rir com o Sexo Papai e Mamãe, que descobri no Multishow. Duvido que aquelas reações dos pais e dos adolescentes sejam totalmente espontãneas, mas mesmo assim foi hilário.

Realmente, a sensação de desperdiçar tempo tem me feito muito mal. Não o tempo acordado de viver, mas sim o tempo de bola em jogo, de produzir coisas boas. Nesses dias de pronto-socorro, farmácia, injeções e repouso forçado o que mais me incomodou foi pensar que nada do que eu estava fazendo servia pra fazer o mundo melhor, seja o meu ou o dos outros. E sem essa desculpa de "mas era para a sua saúde melhorar". Ora, melhor seria não ter sofrido o ataque das abelhas assassinas, pra não perder tempo e dinheiro consertando.

Entonces vejamos como se comporta a última semana deste outono. No que depender de mim, será uma bela recepção para o inverno que vem chegando.

Quarta-feira, Junho 03, 2009


Cada vôo (só escreverei voo a partir de 2012)que cai é uma paranóia nova que assola a felizarda classe dos aeronautas. Atire a primeira pedra aquele que não conta de um até 40 quando o avião decola, depois da queda do airbus da TAM de 1996. Quem não tem medo de o reverso da turbina abrir, ou de as ranhuras da pista não darem conta de escoar a água a contento.

Desde anteontem, as novas tendências do aeropavor apontam para o paredão de nuvens cumulus sei-lá-das-quantas. Pretendo dar uma ignorada nesta moda. Qualquer risco de vida é melhor do 15 minutos sentindo aquele cheiro nauseante de creolina com xixi velho, de banheiro de ônibus, ventilado num ar-condicionado sujo. E olha que eu, sob recomendação da Dalva, entupo as duas narinas com Vicky Vaporub mas mesmo assim chego indigna ao meu destino. Dalva, pra quem não sabe, é a minha professora de medicina legal. Ela se vale deste recurso quando precisa abrir um podrinho, cadáver que já está apodrecendo há um tempo quando chega na mesa dela.

Mas vim aqui pra falar de outra coisa. De gente com a alma muito delicada. Refiro-me a uma moça que deu entrevista no saguão do Galeão e que perdeu pai e mãe nesta tragédia. "Graças a Deus que foram os dois, né, juntos, pelo menos".

É, tem gente assim, de uma generosidade tão imensa que coloca o próprio sofrimento em segundo plano. Qualquer um de nós estaria se lamentando duplamente, pela perda simultânea do pai e da mãe, mas ela bendizia o fato de um não sofrer pelo outro.

Como minha tia Márcia, que, voltando do velório de um artista da cidade, comentou comigo: "fiquei com tanta pena... ele tinha uma neta, mocinha, que chorava muito... que nem você, quando o vô Ney morreu". Naquele dia triste de 2001 a tia Márcia prestou mais atenção na minha dor de neta do que na dela, que era filha.

Se há uma beleza nas tragédias, eu acho que é essa, a de nela identificarmos quanto altruísmo ainda existe nesse mundo doente do espírito.

Domingo, Maio 24, 2009


Vintage

Fui esta semana ao Twitter, finalmente, ver do que se trata. Domingo é dia de dividir angústias, vamos lá, resistam.

Então, como eu ia dizendo: lembrei de uma crônica do meu inolvidável Maurinho, na qual ele dizia ter sido "o último a visitar o piscinão de Ramos". Porque eu também devo ter sido a última a entrar no twitter, e como com tradição não se brinca, obviamente ainda não aprendi aquela lógica. Não sei adicionar ninguém, e estaria até agora falando sozinha por lá se o Rodrigo Itaboray e a Paulinha não tivessem me localizado.

Assim como essa, outras novidades vêm sendo mitigadas na minha vida antiguinha, onde anda faltando espaço para o básico. Foi preciso meter uma marreta na parede e matar uma aula pra poder ir ao Café Filosófico, no Mezcla, quinta passada (mas era mesmo preciso. Quem nunca foi, trate de ir). Hoje, por exemplo, é tanta coisa pra fazer que eu jamais poderia estar aqui, escrevendo. Só vim porque, primeiro, estou com saudades. E segundo, porque no topo das minhas angústias está o medo de não saber mais escrever. Tudo menos isso, né.

Mas ah, queria um dia de 30 horas. Nessas seis adicionais eu arrumava meu armário, jogava fora papéis inúteis, chapéus que eu nunca usei, separava os sapatos que têm que levar pro sr. Walter pôr um saltinho novo, e as roupas pra Maria Helena consertar. Botava meu pijama novo (tem mulher com mania de bolsa? eu tenho tara por pijama, todo outono eu compro uns), terminava de ler o livro da Nise da Silveira. Começava a ler o Mentes Perigosas, que comprei e nem abri ainda. Fazia logo a matrícula na academia, porque caminhar, só, não resolve os problemas de quem passou dos 30, e me dava o direito de cozinhar em casa. Atualmente, nem pensar: são horas escolhendo o que fazer, comprando os legumes, outras tantas lavando, cozinhando, servindo a mesa, e, depois, doing the dishes. Dra. Gilkian Mc Keith, eu sinto muitíssimo, mas sua dieta verdejante eu só vou conseguir fazer depois de tomar posse e entrar em exercício no meu cargo público.

Aliás, ufa. TUDO, praticamente, só vai poder ser feito depois da interrogação no salão azul da Procuradoria de Justiça. Por hora, é estudar, estudar, e o resto que continue esperando.

Isso aí. Acho que vou deletar o twitter. Não é nada, não é nada, vão lá preciosos instantes roubados das parcas 24 horas da minha rotina Jack Bauer.

Domingo, Abril 19, 2009



Malena Contrera, uma professora de semiótica fantástica (amiga de Papai, naturalmente), escreveu um livro também fantástico chamado Mídia e Pânico, alertando para o volume de informação e estímulo midiático dos quais não estamos mais dando conta. E olha que ela nem estava estudando para concurso público.

Li este livro na época da minha monografia e me lembrei dele, ontem, em mais uma conversa séria com o Rodrigo. Somos um casal sui generis que, ao invés de passar o sábado à noite discutindo a relação, passa o sábado à noite discutindo... concurso público. E chegamos à conclusão de que não sabemos o que é pior: estudar sem material ou ter material demais pra estudar.

Não me canso de falar que o CAVE é o melhor cursinho pré-vestibular do mundo, justamente porque com suas apostilas completas e finitas me davam a maior autoconfiança do planeta, no matter quantos candidatos houvessem por vaga. De que tamanho seria uma apostila concisa para os concursos jurídicos de hoje em dia??

Para atender ao edital, livros atualizados de doutrina, códigos e jurisprudência seriam o suficiente. Mas vejam vocês como é montada a confusa biblioteca de um operador do direito:

Começando pela faculdade, com a bibliografia básica e cadernos meio incompletinhos. Sabe como é faculdade.
Quando me formei, estes livros estavam, naturalmente, desatualizados. Hora de renovar tudo.
Entrei na pós-graduação, com suas exigências literárias.
Depois, parti para o cursinho, que indicava outros autores. Comprei essas novas obras. Veio um novo Código Civil. Encomendei um atualizado, comentado. Uma dúzia de mudanças no Código de processo Penal. Mais livros. Resoluções do Conselho de Justiça Federal, que imprimi, e ah! Os cadernos do cursinho. As aulas gravadas em audio. Em vídeo. Outro código novo, que já chegaram cento e cinco novas leis penais, reformularam o código de trânsito, e enfim. Aquela pilha de papéis ali são os julgados do STJ e do STF que nós temos que conhecer, senão estamos fora do mercado de trabalho. Fora as jurisprudências e Constituições estaduais. Sabia que existe uma pra cada unidade federativa? Não se avexe. Eu só fui saber no sétimo período da faculdade.

Por cima de tudo isso, as vaidades acadêmicas de cada banca examinadora e suas nomenclaturas inéditas para aquilo que conhecemos bem, só que pelo nome certo. Cada conceito em direito tem pelo menos três correntes, uma objetiva, uma subjetiva e outra muito pelo contrário.

Em meio a toda essa normalidade, peguei o ônibus pra casa do Rodrigo ontem à noite pra gente estudar, pelo menos, num ambiente diferente da sala da minha casa. Afinal, era sábado. E ficamos os dois olhando pra estante como se estivéssemos na base do Aconcágua. A prova é daqui a quinze dias, e não será cobrado nada que a gente nunca viu. Mas depois de tanta aula, de tanta leitura, a gente perdeu totalmente a noção do que precisa ser revisto. O que a gente pensa que tá careca de saber e ainda não sabe?

Começamos a rediscutir a estratégia de estudo a partir de uma fantasia: e se não tivéssemos mais nada na vida a não ser um único vade mecum com as principais leis e códigos pra estudar? OK, e um caderno de cada matéria (Uma suspeita seríssima que nós temos sobre algumas pessoas conhecidas e que foram aprovadas em certames difíceis é justamente essa: elas não estudaram senão pelos caderninhos, já que anotam tudo e nunca foram vistas folheando um manual na Saraiva).

Mas então, se só tivéssemos numa única preteleirinha as coisas que deveríamos ler.
Talvez conhecêssemos tudo aquilo de cabo a rabo e estaríamos aprovados no próximo concurso, e nos primeiros lugares. Algo meio parecido com a inveja que eu sentia da Narizinho, quando eu era pequena. Eu tinha muito brinquedo e sonhava em ter uma única boneca, que fosse "A" minha boneca, com quem eu dividiria o mundo, que nem a Emília.

Enfim.

Esse post eu escrevo para pedir ajuda. Quero saber o que fazer com a minha overdose de material, já que é tão bom poder usufruir de tanta informação, mas tão aterrorizante ficar parada na frente de uma biblioteca sem saber nem por onde começar.

Se alguém souber de um conselho para a memória parar de brincar de estátua, toda vez que eu pego um livro, podem me mandar um e-mail que eu serei grata pelo resto da vida. Sabe um pião rodopiando tão rápido que parece até estar parado? Então. Sou eu diante desse monte de coisas para ler, ouvir e assistir, sem conseguir reunir tudo num mesmo entendimento que me leve ao aprendizado.