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quarta-feira, janeiro 09, 2019


Obrigada, janeiro, por uma tarde na piscina suspensa. Esta banda tava sujinha mas a profunda tava um arraso :D

Obrigada pelo silêncio das suas ruas despovoadas e tranquilas, pelas suas manhãs ensolaradas de cores vibrantes, sem trânsito e sem gastura.

Obrigada pelo perfume maravilhoso das suas noites e do cesto de manga ubá, fruta carnuda e suculenta temperada com  maestria entre o doce e o azedinho. A cara da época.

Obrigada pela repartição quase vazia e por tantas pessoas apinhando as praias do litoral brasileiro. Por tanta gente sendo feliz longe e perto de mim.

Obrigada por toda a chuva que já caiu quando você ainda era dezembro, e que serviu para me deixar encher sem culpa vários copos d'água e tomar quantas chuveiradas eu quiser, todos os dias.

Obrigada pelo pôr-do-sol depois das sete, por detrás das árvores do Museu, banhando toda a cozinha e toda a área de serviço daqui de casa.

Obrigada pelo otimismo sem porquês que emana das suas madrugadas virgens e intocadas, suspensas no tempo e no espaço.

Obrigada pelo cansaço ao fim do dia, e até pelo calor assando as pernas entre os lençóis que a pele dourada mal suporta. 

Obrigada pela tagarelice das mulheres na sauna, alegres de bebida, de nudez e de máscaras de beleza. Sobretudo, obrigada pela ducha gelada massageadora, que me embala como um bebê no berço até a hora de dormir.

Obrigada pela Stella crescendo saudável na barriga da Nandinha, pela boa recuperação de mammy, pelo Gabriel e Olívia aprendendo a falar "titia". 

Por fim, obrigada por trazer a reboque um ano inteiro de surpresas, e que elas venham tão maravilhosas quanto a maior parte de você.


domingo, janeiro 06, 2019


Tem fases em que tudo o que eu quero é ir pra roça. 

Roça mesmo, sem nem luz elétrica direito, só aquelas paredes grossas de alvenaria com telhadinhos aparentes, barulho de grilo, mugido de vaca. 

O cheirinho de mato e de madeira, de colchas de tricô guardadas fundo no armário, o céu estrelado. O café coado no bule esmaltado. A broa de milho e o doce-de-leite. Fogão de lenha. 

Sair pra andar a cavalo debaixo de um sol escaldante, voltar, tomar um banho e sair andando a pé de cabelo molhado pela estrada de terra, adiantou nada o banho. Ouvir uma música de sanfona bem ao longe e sentir um comecinho de frio depois do pôr-do-sol.

Até que uma lembrança, uma única lembrança estraga-prazeres chega aqui e bane toda a nostalgia pra longe: o trio parada dura pernilongo, cascavel e sapo. Aí acordo do embalo romântico e me pego com as poesias da Adélia Prado, a mais roceira das nossas escritoras.


Ah, amanhã volta o pole. Não aguentava mais de saudade.

Já são seis dias de uma dieta fake que na verdade só baniu chocolate e diminuiu o tamanho das porções. Neste ano, quero ficar levinha que nem uma borboleta de papel de seda. Pra quê? Pra nada. Pra me sentir bem. Pra andar sempre com um pouquinho de fome, coisa que adoro. 

Contando os dias para as primeiras férias do ano, que desta vez terão uma novidade dentro da familiaridade: dos 15 dias off, vou passar uma semana em São Paulo, mas em outra São Paulo. Claro que os radicais absolutos não vão mudar: vou ver meus sobrinhos queridos, vou almoçar um dia no Gopala, vou na Livraria Cultura e na Santa Luzia. Mas não vou ficar no Íbis e, sim, num puta hotel de luxo. Vou a peças de teatro e a programas diferentes que nunca fui antes, ver outra São Paulo. Jantar no Terraço Itália, inclusive. Conhecer o bairro judeu e o aquário municipal. Curtir a cidade como uma turistona de verdade.

Quanto à segunda quinzena de férias, em novembro: vamo esperar a madame poeira política baixar um pouquinho, né? pra ver pra que lado vão o senhor dólar e a dona bolsa. Com medo de fechar meu pacote para o Egito toda felizinha e, lá por abril, o Filho da Puta apertar um botão muito errado e minhas economias voarem todas pelos ares. O momento é de cautela e de prudência, e se tudo der errado, vou pra onde mesmo? 

Isso aí, pro mato.

Apesar das cobras e apesar dos sapos.

terça-feira, janeiro 01, 2019


Primeiro café de 2019, quase ao meio-dia. 

Lá pelas 16h, o tradicional gratinado de vegetais, purificador e revigorante. 

Agorinha às 19h, chazinho de hibiscus com biscoitinhos quebra-quebra e um punhado de uvas e cerejas. 

No réveillon do ano passado fiz vários pedidos, nesse só fiz um. Não que não esteja até aqui de desejos a realizar: na verdade, nunca tive tantos. Mas neste momento, um deles é tão essencial que todos os demais podem esperar. 

Estou tão certa de que vai dar tudo certo que talvez nem precisasse pedir. Mas é da minha incorrigível natureza, assim como o hábito de checar toda a casa, pé ante pé, antes de deitar, mesmo sabendo que as luzes estão todas apagadas e, as bagunças do dia, devidamente recolhidas.


Amanhã vou acordar com uma fome de leão. Vou sair pra dar uma corridinha pelo quarteirão mesmo, só pra dar uma transpirada, antes de tomar um bom banho e um café.

Vou descer para o trabalho e enfrentar os despachos que não tive tempo de concluir sexta passada. Tomar um café com a Anna, que sonho, e fazer o download de um livro novo no Kindle. 

Organizar a cabeça e o corpo, o espírito e a matéria, equilibrar o possível e o impossível. Se estiver um calorão, açaí. Se chover, chá. Se do nada mudar de ideia, uma surpresa. 

Tirar, da minha frente, tudo o que eu não quero ver e que seja perfeitamente possível passar sem. Pra quê, né?

Principalmente: comparar o que havia para temer em janeiro de 2018 e o que há agora. Praticamente, só resta um inimigo de pé. Todos os demais foram vencidos. Então, por que a apreensão e o medo de este último Golias ainda ter qualquer poder sobre mim?

Ele não vai, quem vai sou eu.

Me aguardem. 

domingo, dezembro 30, 2018



Muda a folhinha, passam-se os anos, mas o essencial se preserva. Essa é a minha enorme e profunda segurança. 

Nenhuma garantia se compara ao fato de saber que estou em mim mesma, aconteça o que acontecer nesse misterioso 2019 que se aproxima. Que estou comigo e com as minhas memórias e pensamentos, minhas estratégias de sobrevivência e minhas redes de afeto, minha intimidade e meus amplos cenários oníricos de futuro aos quais ninguém mais tem acesso. Eis uma aposta onde a banca sempre ganha, e a banca é a gente mesmo: contar com nossa própria capacidade de reinventar a vida, o que quer que aconteça. Quaisquer que sejam as perdas e os ganhos. 

2018 foi, em muitos aspectos, a continuidade de um furioso saqueamento de suprimentos existenciais que teve início em 2016, e que só não me deixou sem nada porque desenvolvi recursos mágicos de rabo de lagartixa: dos cortes, tem vida nova brotando em amplas direções.

E quanta vida nova.

Não estou com um pingo de medo, porque a derrama dramática e sangrenta já se verteu inteira e por completo, de boca pra baixo, exposta ao sol. E eu, corajosamente, estou aqui. Vou estar cada vez mais. Acompanhada e fortalecida: cuidado vocês. Cuidado quem agora for vidraça. Cuidado esbulhador que acha que vai longe com as ferramentas forjadas por anos de manuseio alheio. Cuidado, legitimado aparente que jamais terá paz, porque sabe que sua posse é clandestina e precária.

Quanto a nós, de mãos dadas, robustos em nossa moral intacta e em nossa irmandade sólida, nós estamos prontos. 

Feliz 2019!

terça-feira, dezembro 25, 2018


Um Natal totalmente diferente de todos os que já tive. Sem ceia noturna, sem famiage, sem chokladbiskvier, sem roupa nova, sem nenhum dos estereótipos of the season. Em muitos aspectos, bem bom.

Decidi que não brigo mais com 2018 e que vou deixar ele fluir, em todo o esplendor de seu desgoverno,  até seu derradeiro dia 31. Estou craque na arte de dançar sobre tapetes puxados, e a cada um que arrancam sob meus pés, me descubro mais habilidosa em evitar quedas. Deve ser disso que é feita a maturidade, afinal, e é também por isso que a perspectiva de ir ficando cada vez mais velha está me assustando cada vez menos. 

Este ainda não é o post de encerramento do ano porque hoje ainda é dia 25, data em que celebro a bênção de não ter uma família tradicional. O que me traz a profunda paz de poder estar em casa quietinha, com uma quase fome, prevendo que daqui a pouco vou assistir a um programa que deixei gravando no Canal Brasil, tomar um cafezinho com rabanadas e ir deitar antes das nove, que amanhã é dia útil. Nada de comilança de restos de ceia nem de bate-boca com parentes bolsolovers (será que ainda existem)?, e o melhor de tudo: nada de conversas de quina de mesa com semiconhecidos. A Constituição devia elencar a socialização forçada entre as medidas que ofendem os direitos humanos fundamentais, não acham? Porque meu, que trampo.

Eu diria, inclusive, que uma das minhas mais ambiciosas metas de vida é só conviver e conversar com pessoas junto às quais consigo ficar em silêncio por longos minutos sem qualquer centelha de mal-estar. 

Só com pessoas que entendam haver, em mim, um ser humano que não tolera expectativas de comportamento nem obediência a convenções. Que detesta dar e receber presentes nos momentos em que se é socialmente obrigado. E que é capaz de alcançar níveis extraordinários de amor quando é compreendido, respeitado e sobretudo deixado em paz.

Paz: palavra mais linda do dicionário, estado mental de supremo conforto, de uma triunfal sensação de equilíbrio sobre as tensões que nos desafiam todos os dias. Pra mim, vale mais que a felicidade. 

Por isso vou, mais uma vez, passar o réveillon de branco. 

domingo, novembro 25, 2018


Quero começar, amanhã, uma semana de cuidados comigo e com as pessoas que eu amo.

Uma semana com o mínimo de aflições possível. 

Com o máximo de concentração exclusivamente naquilo que é criativo, inovador e curativo. Naquilo que tem força vital, protetiva, reconstrutora. No que puder fazer as pessoas felizes e confiantes de que ainda existe um futuro, mesmo que ele venha sem tantas das nossas referências, perdidas nesse ano devastador. 

Me recolher na minha bolha de bons relacionamentos e de boas práticas inter-humanas. Aproveitar melhor o tempo, único recurso natural mais valioso que a água. Convém, também, comemorar que dessa vimos tendo abundância. 

A insegurança plena, mas fartura de chuvas.

O esvaziamento de alguns afetos, mas o reforço de outros.

Livrarias fechando, mas novas autoras negras escrevendo.

Olívia, Gabriel, Martina, Júlia, Antonella, e Helena? Anne? Nandinha ainda não decidiu. Por eles existirem, já tá tudo bem mais pra bom que pra ruim. 

Tudo mesmo.

domingo, novembro 18, 2018



Malgrado os dissabores supraindividuais recentes, na semana passada ainda tive que ouvir, de um Homenzinho de Merda, que a casa do Magister "não tinha valor arquitetônico ou cultural algum".

Kkkkkkkkk (onde cada k é um tiro na minha cabeça). 

Será mesmo que eu preciso explicar a um membro do COMPPAC quem foi Arthur Arcuri?

Será mesmo que um exemplar raríssimo da arquitetura modernista no centro de Juiz de Fora, com um puta jardim projetado nos padrões de Burle Marx e painéis de Guima, um imóvel que abrigou a primeira escola de orientação progressista da cidade, no auge da Ditadura Militar, não mereceria ser preservado para fruição das gerações futuras, abrigando uma biblioteca, um museu, um espaço cultural qualquer?? 

Será que um cidadão com assento nesse Conselho há sei lá quantos anos pensa que o primeiro P de COMPPAC é de precarização? 

Será que alguém, em sã consciência, acha bacana o pombal de passa-se-este-ponto que a franzina e delicada Rua Braz Bernardino virou, após a construção de (mais) um blocão comercial de gosto duvidoso no espaço antes ocupado pela casa?

Caras, que desânimo. Que cansaço, mas ao mesmo tempo que urgência em reagir à intentona covarde e voluntariosa dessa gente no ataque aos interesses coletivos, aos direitos de todos nós sobre aquilo que nos pertence. Como essa criatura semi-imbecil há muitas outras, todas salivando de cobiça e de avareza miúda, todas imbuídas da mesma má-fé e do mesmo egoísmo sacrificador de valores subjetivos essenciais, estruturadores de nossa constituição humana. Negar a importância da preservação da memória é desconhecer os elementos constitutivos da relação entre o ser e o ambiente. É ignorar profundamente os processos psicológicos de identificação e integração entre o habitante e a urbe, e os reflexos positivos desses sentimentos na melhoria da qualidade de vida de todos os cidadãos. É revelar a própria incompetência para a apreciação do belo, do artístico, dos conteúdos simbólicos presentes em cada marco estético e histórico já incorporado à paisagem urbana. É não saber nada sobre identidade nem sobre afeto, e provavelmente não vivenciar nada disso.

Que triste essa gente, ao fim e ao cabo. 

E que bom estar tecendo uma rede cada vez mais firme de bons contatos, pela conservação do que ainda nos resta da minha garota Juiz de Fora. 

Fiquem com mais imagens que atestam tudo o que não coube nessa narrativa, porque as palavras não dariam mesmo conta.