
Foi assim: eu perdi tempo demais escolhendo um sapato e, no que saí de casa atrasada, me apaixonei à primeira vista.
Era 19 de Maio, tava frio e eu uma palhaça: de tamancos e conjuntinho de plush cor de cereja. Mas quem resolve ir à pedicure às 17h num Outono juizforano não pode reclamar da sorte. Desci bem deselegante o Largo do Riachuelo e, na esquina da Andradas com a Silva Jardim, começou a vida de uma outra Flávia.
Não sei o que foi, bonito o Gianecchini também é. Mas bastou aquele policial grandão passar de bicicleta por mim, sem me notar. Quando me virei para vê-lo já estava com ciúmes do seu destino, do seu casaco preto, do colega que pedalava ao lado.
Daí em diante, começou o desfile diário no mesmo point, eu sempre metida a besta, ele invariavelmente sério, com o rádio no ouvido. Quem sabe amanhã ele me via? Não, não via. E assim foi o mês de Junho. Até que, em Julho, ele sumiu da cidade e eu fiquei doida. Onde achar o cara sem nem saber o nome dele? Vou abordar outro PM fazendo mímica, descrevendo o furinho no queixo?
Meninos, vocês não sabem o que eu sofri. Andava a pé por Juiz de Fora inteira, pegava o carro da minha mãe pra rondar as madrugadas, entortei a rosa-dos-ventos, mas não o vi mais. Transferiram ele, eu pensava. Baixou, mudou de companhia, tombou numa troca de tiros.
Entrei em um por um dos postos da polícia, com cara de vira-lata.
Não perdia um boletim de ocorrência no escritório.
Passei um pente fino em todas as comunidades da Polícia Militar que achei no orkut.
Revirei perfis, fucei o Facebook. Tudo em vão.

Até que, numa madrugada, Santo Antônio teve pena da minha pobre alma apaixonada e eu encontrei um video da formatura dos soldados de 2007. Caindo de sono, dormente de frio, pus o
youtube pra rodar. A um minuto e quinze segundos de filme, passou o sono, passou o pé formigando, ressussictei dos mortos: ele apareceu!! Voltei a cena trezentas vezes, tirei uma foto com a imagem pausada, e passei a andar com ela no celular. Entrei em contato com o cara que hospedava o video, e que fechou comigo: quando encontrar o cara, te apresento pra ele. Feliz da vida, corri pro blog e publiquei aquele
post da menininha loira fazendo cara de eufórica.
Mas bem, o hospedeiro do video também sumiu. E sem me falar o inatingível nome do meu perseguido.
Estaca zero e bola pra frente, agora CHEGA!! mas não chegava, não chegava. Eu queria ele e ninguém mais servia, haja vista o bolo que dei num date antigo, faltando meia hora pro encontro (isso também contei aqui).
Até que numa segunda-feira brava, voltando do escritório, dou de cara com ele no centro da cidade. Me escondi numa loja, de tocaia, e liguei pra Lara: que que eu faço?? Não aguento mais andar por aí com esse cara na cabeça, amiga, me ajuda! "toma uma reta e vai falar com ele", ouvi da sapiência. Não tive coragem. Quando me virei, ele saiu.
Aí, cansada de tudo, sem medo de nada, quase que encenando um quadro no teatro, corri atrás da bike, abordei o sujeito e, à queima-roupa, mostrei a foto que trazia no celular. "Mas esse sou eu", ele falou. "Pois é, eu te amo", eu disse. "A propósito, qual é o seu nome?"
Desde então, nenhum dia se passou sem que nos víssemos. Uma semana depois, ele disse "eu te amo". No nosso segundo mês, tatuou meu nome no pulso. Pouco tempo depois, as alianças de noivado e a gente morando junto.
Essa é a história que eu queria contar pra todo mundo, mas principalmente para aqueles que não se ariscam, que temem demais, que não acreditam no que o surreal pode fazer se a gente, num gesto de gaiatice, deixar a vida acontecer da maneira menos recomendável pelos manuais da experiência. Tudo pode dar errado, mas ah, aquela ínfima possibilidade do sucesso inesperado.
Fiz tudo sem rascunho, de uma vez só, e trouxe pra mim e pro Rodrigo o tal do verdadeiro amor. Lindo, né?? Estou pensando seriamente em contar esse caso pra Glória Perez, rsrsrsrs!
Beijos, beijos e - já falei mas vou falar de novo - se joguem em 2012 que nem eu. Com paixão.