Domingo, Abril 20, 2008


Eu já sabia

Astrid Fontenelle se separou do marido. 2008, definitivamente, não está pra brincadeira...

Digo que já sabia porque as coisas felizes e tristes se movem todas numa mesma geléia, alcançando a vida de todo mundo. Quando a Astrid saiu do Happy Hour no final do ano passado bagunçou a GNT inteira. Mexeu num time que estava ganhando e que curiosamente (curiosamente?) deixou de ser uma atração irresistível pra virar mais um dos 78 canais chatos da TV por assinatura. O efeito Astrid começou com a saída do HH da grade, que equilibrava a animação da programação. Sem ele, resolveram mexer também nas vinhetas e selecionaram imagens feiosas, logo a GNT que tinha tanto bom gosto. Inventaram uns programas esquisitos sobre dietas de cachorro e quando enfim arranjaram a Lorena Calábria para voltar com o Happy Hour já era tarde demais. Ela é simpática e esforçadinha, mas é tão sem-graça. Não tem tanta culpa assim: até a Taís Araújo anda descrente da sua superbeleza.

Passou um duende por lá, e anda fazendo peregrinação pela imprensa, pela política e pela minha vida também, já que eu, muito embora não pareça, estou plugada no mundo. Esse "Elfo do mal" mexeu na inflação que a cada dia me espreme mais na parede, espalhou uma epidemia bíblica de praga de inseto no Brasil inteiro, jogou uma pá de cinza na tocha olímpica, mexeu até com a inquebrantável paz do Dalai. Pra arrematar, chacoalhou a imprensa com um crime nada inédito, mas bizarramente escandaloso no nosso vasto arquivo policial. Levante o dedo aí quem ainda aguenta ligar a TV e dar de cara com aquela fachada de prédio.

2008 anda difícil pra mim também. Me separei do meu carro, meu carrinho querido que sabia mais da minha vida do que qualquer amigo, blog, confidente, meu carro que me levou pras provas da faculdade, pra Maresias, carro em que o Vô Ney andou e onde eu chorei sozinha, estacionada no cemitério, no dia em que ele morreu. Perdi a prova do MPF, eu que me achava tão preparada, e fugiu de mim uma esperança que deveria me acompanhar o ano inteiro, fiquei descrente de tudo o que aprendi nesses quase dez anos de estudo. Pegou em mim essa tristeza generalizada que anda à solta, enjoei até do Todd. Quando o Raphael me ligou pra desabafar que estava cansado da vida, de estar sem grana, de não querer nada, pela primeira vez na vida fiquei sem uma palavra de consolo. Acho que desaprendi a me reinventar.

Mas não posso. A única coisa que a gente não pode fazer é desaprender a se reinventar.

Prometo que volto aqui quando descobrir o que fazer.

Segunda-feira, Abril 07, 2008




Na minha família sempre foi assim. As pessoas só se permitem morrer quando existe um novo Martins chegando. Vô Zezé foi embora, Nandinha nasceu. Vó Célia morreu quando Raphael era recém-nascido. Em Abril de 2001, perdemos Vô Ney para ganhar Ana Carolina.

Pelos vistos, na minha farta e boa família de amigos as coisas também vão assim. Soube que o filhote do Zidane está, neste momento, crescendo que nem um feijãozinho na barriga daquela moça linda que ele namora faz um tempo. E Felipe, meu colega de turma no Magister, o céu levou no último Domingo.

Não vou dizer "não tenho palavras". Palavras eu tenho, sim, e muitas. Palavras eu tive pra lamentar, quando soube que ele estava doente, em 2004; frases inteiras de grande alegria eu também tive, aos montes, quando me chegou aos ouvidos a notícia de que ele estava se recuperando.

Agora tenho a dizer que a sua morte, Felipe, cobre de um luto quieto aquela simpatia que, como alguém já disse numa música, era quase amor. Você não tinha meu telefone, nunca fomos juntos ao cinema, há um bom tempo eu não te via. Mas a lembrança da sua pessoa evocava em mim sempre a mesma exclamação: "adoro o Felipe". Sinto uma dor diferente da carência do "pena não te ver nunca mais". Sua partida me dói menos pela saudade do que pela vontade que eu tinha de você estar vivo e feliz neste momento, em qualquer lugar que fosse.

Pior, pra mim, é pensar que você não pode mais estar aqui pra comprar um jornal na banca, pra ouvir uma música no rádio enquanto espera a sua vez no dentista, pra ir buscar aqueles salgadinhos que a gente encomenda em dias de festa, lá na puta que pariu. Pra fazer qualquer coisa boba enquanto ficava mais um pouquinho com a gente.

Acho que disse a você, em todas as oportunidades que tive, o quão grande era o meu carinho. Não tenho remorsos de não ter feito mais por você, porque éramos assim mesmo: um sorriso largo, um abraço, elogios recíprocos e um até breve. O que não me impediu de deixar bem claro pro Toninho que eu seria a primeira a fazer o teste de compatibilidade, caso um transplante de medula pudesse te salvar.

Vai com Deus, Felipe, e se puder apareça de vez em quando pra dar um alô, num ou noutro sonho que eu tiver.

Terça-feira, Março 18, 2008



Num Estado de Direito, a persecução do justo impõe três severas condições: a proibição do exercício arbitrário das próprias razões, a obediência à lei como única fonte restritiva das liberdades individuais e sociais e a subserviência ao Poder Judiciário como único detentor da competência para, nas palavras de Chiovenda, promover a atuação da vontade concreta da lei.

Nada muito diferente do que, em escala microcósmica, acontecia no playground do prédio, em dia de Banco Imobiliário: cada um com seu pino verde, vermelho, azul, sob as regras implacáveis do folheto dobrado em quatro, e a coordenação inevitavelmente autoritariazinha de quem assumia "o Banco". Tentasse você avançar quatro casas para poder comprar um hotel no Brooklin, ao invés das seis que o dado permitiu, e teríamos dois rumos possíveis para o resto da tarde: um indisciplinado excluído ou quatro participantes à margem do regulamento (incluindo o Banco), transformando o nonsense em grande barato do jogo.

O impossível, ali, era o jogo continuar sério com um insubordinado e três compenetrados.

Por mais sisuda que seja a aura de importância dos advogados, juízes e promotores, a dinâmica do jogo é a mesma, e na perspectiva da grande ficção social que é o ordenamento jurídico, um juiz é tão investido de autoridade quanto o banqueiro que empresta a graninha rosa e amarela para evitar a bancarrota do participante que ficou duas rodadas sem jogar. A diferença elementar é que o Banco Imobiliário que descambe para o ridículo vai, no máximo, ter as peças recolhidas e o tabuleiro guardado.

Grande ironia do destino comigo: eu, que era a especialista em subverter a ordem e me divertir bem mais jogando errado do que certo, hoje em dia sou a primeira emburrada a pôr a bola debaixo do braço e ir embora quando vejo os regulamentos descumpridos. Refiro-me, diretamente, a juízes desta comarca que tratam as vestes talares como fantasia de carnaval. Não sei onde mora a falha mais grave desses magistrados: se no fato de reconhecerem a dinâmica artificial da criação das hierarquias ou no extremo oposto, na total ausência de noção da seriedade daquela "brincadeira". Meu coração arrisca uma certeza: o salário que vêm recebendo ultrapassou o nível razoável que os motivasse ao prazer de presidir a ordem e passou a ser a moeda do jogo já ganho. Não há sequer motivos para participar: já ganhou, já ganhou, já ganhou. Os ataques intergalácticos nos processos, no entanto, ainda precisam da luz da sua espada Darth Vader.

A diferença, agora, é que eu não posso sair no meio do jogo só porque tem alguém roubando. Aí mesmo é que eu tenho que ficar. E para meu desespero os anos de prática anarquista não me ensinaram a roubar junto: só a trocar a graça de jogar certinho pela graça de jogar "tudo errado". Sob a suspeita de que os juízes não conhecem tão bem assim as leis, ou que se recusam a aplicá-la, falta-me o reflexo arguto de trocar os sinais da operação para mais facilmente garantir o acesso dos meus clientes à aquiescência do julgador.

Falta malandragem que eu achava que tinha sobrando, ou sobra, aos juízes, a complacência bonachona que, num joguinho de criança, faria cada um recolher suas peças e ir para a casa porque não deu pra levar a disputa a sério. Juiz não pode rir na audiência. Não pode aplicar uma pena branda contra os rigores da lei só porque ora, afinal a vida é apenas uma passagem. É o único que não tem direito de chamar de simulacro da realidade o grande simulacro da realidade que é uma audiência pública.

Vem faltando aos nossos magistrados, por excesso de dízimo, a Fé que anima a nossa igreja.

Agora entendo o conflito que deveria ser a cabeça do pequeno Jung, cujo pai era um Pastor protestante que não acreditava em Deus.

Quarta-feira, Fevereiro 20, 2008


Então digamos: este blog virou um espaço de homenagem à beleza.

Belezas da vida, que eu ando vendo por aí.

Como a da senhora Divina Domingues Vieira, de Tocantins, que achou 10 mil reais no quintal de casa e devolveu à polícia. A prefeitura, que devia ficar com o dinheiro (já que o dono não foi encontrado) devolveu o valor a ela.

Merecidíssimo. Lindo aqui é todo o episódio: a lisura da polícia (que afinal de contas não deu sumiço na grana), do Prefeito (que também não ficou com o tutu) e da Velhinha.

Quando a perguntaram por que ela havia devolvido o achado, respondeu: não tem nada melhor nesta vida do que ser honesto, moço. E ria de um riso iluminado, imenso, um riso que eu quero dar aos meus setenta anos também. Foi pena eu não achar uma foto dela pra pôr aqui.

Vamos de Jorge Benjor (que, além de lindo no visual e no espiritual, mora no meu coração): "se malandro soubesse como é bom ser honesto, seria honesto só por malandragem".

Domingo, Fevereiro 17, 2008


Parece mas não é

É. PARECE Que este blog virou mensal. Não virou. Foi por mero acaso que eu vim escrever aqui hoje. Também PARECE que virou um espaço dedicado esclusivamente aos pets e nosso infinito amor por eles. Também não.

Só não resisti a um impulso. Vim redigir uma petição para ser anexada num processo durante minha estadia em Brasília e, uma vez no UOL, li a reportagem sobre a foto aí de cima: o cãozinho herói que salvou esta neném do ataque de um pit bull. A fera se soltou de uma corrente e avançou na pequena, e o mascote da família, com metade do tamanho do outro, foi pra cima com unhas e dentes.

E não tenho nada pra falar, porque quem fala é a imagem. Achei tudo nela tão lindo. O cenário de fundo, humilde, simples, a menininha de chupeta, sem noção do perigo que correu, e o melhor de tudo: a cara de orgulho do senhor de boné, afagando o vira-latinha simpático e prestativo que neste Domingo certamente vai comer um bifinho especial misturado no angu. Fiquei emocionada em ver, nesse rosto, uma expressão tão bonita, de reconhecimento, de gratidão, de quem passa as mãos por um troféu de campeonato. Um quê assim de altivez.

E a cara do cachorrinho, mais inocente ainda do que a da criança, amigo, bonzinho, "tamos aí é pra isso".

Coisa que vale a pena nessa vida, amizade de um cachorro.


Now back to work.

Quarta-feira, Janeiro 02, 2008


Apenas mais uma do Orkut



Já falei aqui que a principal função do Orkut é ser o repórter mais rápido do mundo. Fora o fato de ser, também, a pesquisa vox populi mais fiel. Hoje em dia pode-se trancar recados, fotos, pode-se até evitar que te vejam online, enfim, não tem desculpa para não estar cadastrado na página. O velho papo da "falta de privacidade" já era, e azar de quem continuar resistente: hoje o Orkut salvou o resto do meu dia.

Tomei o café-da-manhã com meu Pai e depois que ele saiu pra viajar acessei a internet 'só pra saber do mundo' antes de começar a estudar. E dou de cara com uma notícia do site terra, sobre um gatinho cujos donos viajaram de férias há pelo menos dois dias e o deixaram trancado do lado de fora da janela, sem água nem comida.

Nenhum refém das FARC me fez sofrer tanto. Nenhuma carreta tombada na Régis Bittencourt e seus 300 Km de engarrafamento me deixaram mais triste do que a agonia que aquele bichinho estava passando, eu que sou mãe e que checo paranoicamente a água, a comida e o banheirinho da Nala dez vezes por dia e jamais saio de casa sem ver exatamente onde ela está.

Entrei em desespero. Escrevi para o Terra na hora, pedindo pelo amor de Deus para fazerem algo. Pensei em ligar para a Cora Ronái, mas ela é carioca, que fazer. Mandei um e-mail à sociedade protetora dos animais em São Paulo e já estava prestes a telefonar para a delegacia de crimes ambientais quando, ao ver que o site não atualizava a notícia, pensei em verificar no orkut se o gatinho já houvera sido salvo.

E foi!!! Salvo por uma orkuteira!!!

Numa das comunidades de proteção aos animais a notícia se disseminou com a velocidade de um foguete. Imediatamente os membros paulistas localizaram o endereço exato do prédio, alguns foram pessoalmente tratar com o porteiro e o síndico, e quando a imprensa apareceu a pressão (press- pressure?)foi forte demais e o arrombamento, autorizado. O gatinho já foi alimentado e, dizem, passa bem.

Talvez a Sociedade protetora, entidade nobilíssima e que tem todo o meu respeito, não houvesse chegado a tempo, afinal seus membros também são gente e precisam de descanso no início do ano. Talvez o Ministério Público de plantão considerasse o caso menos relevante do que a situação de menores que estavam apanhando de padrastos. Talvez a Polícia reagisse ranzinzamente alegando ter mais o que fazer. Todos os órgãos de proteção ao nosso redor poderiam falhar e perder-se aquela vidinha inocente, mas a união de dezenas de mães e pais de gatinhos, descabelados, reclamando providências numa página da internet foi capaz de resolver o problema a tempo recorde.

Enfim, entre o mal-estar da notícia e o alívio da solução decorreram parcos 85 minutos, incluindo o tempo de redação deste post. Tenho o resto de um dia bem melhor pela frente, graças à informação relâmpago que o orkut trafica pra lá e pra cá.


Minhas homenagens, sobretudo, à Sra. Rose Guirro, orkuteira apaixonada por gatos que pessoalmente retirou o bichinho da janela e até gravou o vídeo do resgate.

Bem, feliz 2008 a todos.

Quinta-feira, Novembro 15, 2007


Mothern

Obras do acaso.

Nunca fui de seguir seriados. Minto: quando criança, assisti a O Tempo e o Vento e nunca mais fui a mesma. Vi O Pagador de Promessas, O Primo Basílio (minha preferida)e desde então descurti.

Pra dizer a verdade, tenho uma relação estranha com as obras audiovisuais em geral. Na imensa maioria das vezes não consigo me identificar com a trama nem com os personagens e largo o filme no meio. Noutras raras vezes entro de tal forma no enredo que vejo, revejo, memorizo diálogos, uma fixação. Isso normalmente acontece com filmes "pra dentro", onde o melhor da história se passa na psique dos personagens e não em cavalinhos-de-pau alucinados no centro de Manhattan.

Há três meses fomos eu e Rodrigo a Belo Horizonte prestar (mais um) concurso. Ele, que não regula, topou fazer duas provas no mesmo dia com um intervalo de menos de uma hora entre uma e outra, e -detalhe- ainda por cima cada uma em um colégio. De modos que voltei da minha prova à uma da tarde, tomei um banho, belisquei uns biscoitinhos (almoçar seria falta de solidariedade) e fiquei no hotel, à toa, esperando ele voltar. E foram 5 horas ininterruptas de TV, proeza inédita que eu não suportava desde os oito anos e que eu só consegui por causa das 4 horas de prova e uma senhora caminhada do Centro de BH até a Savassi (favor olhar o mapa). E em jejum.

Resultado: me apaixonei perdidamente pela GNT. E pelo Mothern, seriado que depois eu ganhei do Rodriguinho de presente e recomendo aos namorados, aí com o Natal chegando, como ótimo presente pras meninas. São quatro amigas na faixa dos 30, três casadas e uma solteira, mas todas mães que trabalham fora, se cuidam, namoram e etc etc etc. Não é nenhuma superprodução, as atrizes são desconhecidas e beeem canastrinhas, mas é criativo, bem bolado e original, diferente. Além de charmoso, como tudo naquele canal.


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Aliás, a materninade é uma temática que sempre me chamou a atenção. Tenho verdadeiro pavor de pensar que posso ser mãe de alguém um dia, na mesma proporção em que trato toda criança como se fosse minha e imagino que esta seria a melhor coisa da minha vida. Mas o mais interessante de tudo o que circunda esse assunto, pra mim, é o poder místico das mães, que são pessoas comuns pra tudo o mais mas que em relação aos filhos têm premonições, insights, às raias do sobrenatural. Outro dia li, em algum lugar da web, a mãe do Todd Rundgren , The True Star, contando que, quando ele nasceu, ela passou o dedo no céu da boca dele e pelo formato do arco (??) percebeu que ele teria uma voz perfeita para cantar. Não é de arrepiar, um troço desses?

Yngwie Malmsteen, meu ídolo de adolescência, aos sete anos de idade ganhou da mãe um violão, e quando aos quinze disse pra ela que deixaria a escola para ser o guitar heroe mais falado do mundo, recebeu ao invés de uma surra a pronta anuência de uma confiança absoluta. Saiu mesmo da escola, se trancou no quarto com os instrumentos e hoje coleciona Ferraris de todas as cores na garagem de sua mansão em Miami.

Pra não falar das minhas avós, cuja maluquice se espraiou por toda a família que nem uma correnteza de cachoeira, levando a maioria que não conseguiu se agarrar num galho e se safar daquilo. Poder de mãe é sempre isso, a ira divina quando é do mal, e as bênçãos dos anjos quando é do bem. E é sempre do mal e do bem juntos.

E na minha leiga e inexperiente opinião, que nunca passei por isso, o medo da dor, da responsabilidade e de todos os percalços da maternidade até faz sentido, mas o que realmente horroriza uma mulher é saber que vai botar no dedo, de uma hora para outra, o Anel que a todos governa. Igual ao do Frodo.

Aí na foto a Dona Silce, minha querida Vovozinha, que ontem completou 79 anos mas que continua gatinha.